Mais uma vez, a noite lhe fazia companhia. Era fiel e agradável. Dessa vez, além da escuridão e do silêncio, trouxera também um copo de vinho com algumas pedras de gelo. Um vinho barato, encontrado em qualquer super mercado. Bebia mesmo em um copo comum. Achava taças muito formal e um tanto quanto entediante. Enquanto apreciava a noite em um relacionamento franco e sincero, dava leves goles no vinho, sentindo o gosto nada agradável daquele vinho barato. Pôs-se a olha fixamente o vinho em perfeita harmonia com os cubos de gelo. Cada espaço entre os gelos era preenchido cuidadosamente por uma fina camada de vinho. Camada que não deixava aqueles gelos se tocarem em momento algum.
A cada gole, reparava a diferença da cor do vinho com o passar do tempo. O gelo derretia e alterava a cor do liquido. Era a única mudança ao seu redor em horas. Os gelos ainda continuavam sem se tocar. A noite ainda é silenciosa. A vida ainda é parada.
Gole a gole fui me embriagando com o pensamento longe. Fui me embriagando com alguém que não conhecia. Embriaguez que nos aproximava, mas assim como os gelos, não podíamos nos tocar. Gelos que somos, continuávamos a degustar o vinho para que o mesmo acabasse e os gelos finalmente se encontrassem. Demorou horas até que finalmente todo o vinho tinha se acabado. Mas junto com o vinho, o gelo derreteu antes mesmo de se encontrarem.
sábado, 25 de abril de 2009
sábado, 18 de abril de 2009
Doce Inocência
Era pra ser apenas mais uma noite de sábado até receber o convite para ir a uma sorveteria. Num passado recente, eu ia com satisfação, mas por algum motivo dessa vez algo me incomodou antes mesmo de sair pelo portão. Não liguei. Paranóia. Saí sem ligar para aquele mal estar psicológico.
Como eu pensava, ao virar a esquina me deparei com uma cena no mínimo estranha: uma menina mal vestida, despenteada, magra, aparentava ter entre cinco e sete anos, sentada com a cabeça entre os joelhos aparentemente chorando em frente à uma casa.
Me chamou a atenção de imediato, mas com a frieza à flor da pele, ignorei por algum instante por eu não ter nada a ver com aquilo. Não teve jeito. A consciência bateu rapidamente fazendo com que eu voltasse para conversar um pouco com aquela criança. Já era tarde, quase dez da noite e uma criança sozinha e aos prantos. No caminho de encontro àquela criança imaginei várias coisas para que aquela menina estivesse ali chorando.
Imaginei que fosse uma das muitas crianças abandonadas da cidade chorando por um prato de comida. Pensei que fosse não uma criança sem família, mas uma menina com pais violentos que, enquanto discutiam, não viram a filha sair de casa. Eu não conseguia chegar a uma conclusão e não havia forma de saber do que se tratava sem perguntar à própria menina. Como um velho amigo, sentei ao lado dela e fiquei em silêncio por alguns instantes. Ela me olhou, com os olhos cheios de lágrimas estranhando minha atitude. Perguntei o nome dela, ao invés de me responder, ela apenas limpou as lágrimas, engoliu o choro e virou o rosto. Tentei novamente mas já perguntando onde ela morava. Ainda sem falar, ela apenas apontou uma casa humilde há uns quinze metros dali. Questionei sobre seus pais, conseguindo enfim algumas palavras da garotinha. Ela me respondeu que a mãe estava lavando roupas e o pai estava trabalhando. Me aliviei um pouco, mas ainda sim não fiquei menos curioso pelo fato dela estar ali. Chamei-a para ir para casa e, com uma voz chorosa, respondeu que não podia. Que tinha que ficar ali. Não discuti. Permaneci sentado ao lado da menina, mas voltei a ficar em silêncio para que a própria criança tomasse coragem e me contasse. Ela me questionou se não iria continuar andando pra onde eu ía. Eu ri e falei que, naquele momento, eu tinha saído para encontrar algum amigo novo e tinha a achado. Ela sorriu e começou a falar que estava ali justamente por causa de uma amiga. Não entendi e pedi para que ela me contasse melhor. Com uma voz inocente me falou:
_Eu vim aqui mais cedo chamar uma amiguinha minha que mora nessa casa, mas ela estava saindo para o hospital e que voltaria às seis horas, mas até agora ela não chegou. Estou preocupada, então sentei aqui para esperar ela chegar e não vou sair até ver minha amiguinha.
Naquele momento eu me despedi e me levantei. As lágrimas que antes escorriam pelo rosto da criança, de alguma maneira saltaram para a minha face.
Como eu pensava, ao virar a esquina me deparei com uma cena no mínimo estranha: uma menina mal vestida, despenteada, magra, aparentava ter entre cinco e sete anos, sentada com a cabeça entre os joelhos aparentemente chorando em frente à uma casa.
Me chamou a atenção de imediato, mas com a frieza à flor da pele, ignorei por algum instante por eu não ter nada a ver com aquilo. Não teve jeito. A consciência bateu rapidamente fazendo com que eu voltasse para conversar um pouco com aquela criança. Já era tarde, quase dez da noite e uma criança sozinha e aos prantos. No caminho de encontro àquela criança imaginei várias coisas para que aquela menina estivesse ali chorando.
Imaginei que fosse uma das muitas crianças abandonadas da cidade chorando por um prato de comida. Pensei que fosse não uma criança sem família, mas uma menina com pais violentos que, enquanto discutiam, não viram a filha sair de casa. Eu não conseguia chegar a uma conclusão e não havia forma de saber do que se tratava sem perguntar à própria menina. Como um velho amigo, sentei ao lado dela e fiquei em silêncio por alguns instantes. Ela me olhou, com os olhos cheios de lágrimas estranhando minha atitude. Perguntei o nome dela, ao invés de me responder, ela apenas limpou as lágrimas, engoliu o choro e virou o rosto. Tentei novamente mas já perguntando onde ela morava. Ainda sem falar, ela apenas apontou uma casa humilde há uns quinze metros dali. Questionei sobre seus pais, conseguindo enfim algumas palavras da garotinha. Ela me respondeu que a mãe estava lavando roupas e o pai estava trabalhando. Me aliviei um pouco, mas ainda sim não fiquei menos curioso pelo fato dela estar ali. Chamei-a para ir para casa e, com uma voz chorosa, respondeu que não podia. Que tinha que ficar ali. Não discuti. Permaneci sentado ao lado da menina, mas voltei a ficar em silêncio para que a própria criança tomasse coragem e me contasse. Ela me questionou se não iria continuar andando pra onde eu ía. Eu ri e falei que, naquele momento, eu tinha saído para encontrar algum amigo novo e tinha a achado. Ela sorriu e começou a falar que estava ali justamente por causa de uma amiga. Não entendi e pedi para que ela me contasse melhor. Com uma voz inocente me falou:
_Eu vim aqui mais cedo chamar uma amiguinha minha que mora nessa casa, mas ela estava saindo para o hospital e que voltaria às seis horas, mas até agora ela não chegou. Estou preocupada, então sentei aqui para esperar ela chegar e não vou sair até ver minha amiguinha.
Naquele momento eu me despedi e me levantei. As lágrimas que antes escorriam pelo rosto da criança, de alguma maneira saltaram para a minha face.
terça-feira, 14 de abril de 2009
A Estrada
Olhando lá do alto tinha-se a impressão de ser uma simples estrada de terra batida, ora se confundindo com um rio vermelho, ora se assemelhando a uma cicatriz que marcava a paisagem verde. Ao pisar naquela estrada, vi que as primeiras impressões eram absurdas. Aquela estrada era magnífica. A chuva deixara aquela estrada com um vermelho ainda mais intenso, perigoso e convidativo. Eu, moleque e com um espírito aventureiro (embora esse se mantenha escondido na maior parte do tempo), me arrisquei. Comecei a caminha por ali, sem saber que rumo seguir. Não tinha noção de qual seria meu destino. Uma cidadezinha do interior? Uma outra estradinha de chão? Uma rodovia federal movimentada? Era inútil questionar. Decidi apenas segui-la e ver aonde iria me levar.
Caminhei horas, que mais pareciam anos, de cabeça baixa. Pessoas passaram e não as dei importância, pois, na minha jornada, era eu e nada mais. Estava isolado do mundo ao meu redor. Num gesto de impulso, levantei minha cabeça e com uma certa curiosidade, tentei visualizar o fim da estrada, que continuava a cicatrizar as montanhas dali. Em vão. Só vi uma intensa neblina que era típica naquele horário. Mais uma vez abaixei minha cabeça e segui, ignorando as pessoas e indeciso sobre o ponto final da caminhada. Quando me cansei, procurei olhar ao redor e admirar onde estava, mas, pro meu espanto, estava de volta ao ponto inicial. Ali sentei em algo que antes já fora um cupinzeiro e hoje é apenas um monte de terra. Me questionei. Sabia que tinha deixado algo importante para trás, embora não soubesse o quê. Ao tentar me lembrar da jornada, só me lembrei da estrada vermelha sob meus pés, que me levara de volta ao início, e das pessoas que ignorei. Talvez essas pessoas soubessem o caminho para onde eu devia seguir. Agora não dá mais ara contar com elas. O jeito é me levantar e continuar a caminhada.
terça-feira, 7 de abril de 2009
Escuridão
Estava frio. A escuridão era companheira. Era fiel e permanente. Era triste. Por ela se ouvia os gritos de socorro dos sentimentos aprisionados. Era surreal com cenas imaginárias. Era inspiradora. Quis ser como ela, mas algo impediu. Ela sempre estaria em todos os lugares e isso eu não poderia fazer. Pela escuridão, pude te notar triste e amedontrada com aquela falta de luz.
Enquanto eu adimirava a beleza da escuridão, você chorava por medo da solidão. Enquanto eu via a paz naquele cenário preto, você via o terror. Ia de cada pensamento. O meu e o seu estavam em sintonias distintas. Eu estava em você enquanto você se preocupava apenas com a escuridão. A partir daí, fiz da escuridão uma amiga para me aproximar de você. Não adiantou. Quanto mais eu me aproximava, mais pavor eu via em seus olhos. Eu e a escuridão não éramos bem vindos ali. Notei que a escuridão realmente te assustava.
Seu medo era uma dúvida pra mim. Não conseguia entender como algo tão fiel e belo poderia ser tão maléfico para você. Resolvi então me afastar. Errei mais uma vez. A escuridão se mostrou ainda mais assustadora. A atacava com garras invisíveis, porém, cortantes. A machucava e lhe fazia sangrar. Em pouco tempo, essa escuridão lhe venceria. A partir daí, procurei meios de espantar esse seu medo. Tentei de tudo e nada adiantara. Você ainda continuava triste e amedrontada. Foi quando percebi, algum tempo depois, de que realmente precisava. Com um impulso abracei você. A segurei firme. "Não se preocupe. Estou aqui."
Enquanto eu adimirava a beleza da escuridão, você chorava por medo da solidão. Enquanto eu via a paz naquele cenário preto, você via o terror. Ia de cada pensamento. O meu e o seu estavam em sintonias distintas. Eu estava em você enquanto você se preocupava apenas com a escuridão. A partir daí, fiz da escuridão uma amiga para me aproximar de você. Não adiantou. Quanto mais eu me aproximava, mais pavor eu via em seus olhos. Eu e a escuridão não éramos bem vindos ali. Notei que a escuridão realmente te assustava.
Seu medo era uma dúvida pra mim. Não conseguia entender como algo tão fiel e belo poderia ser tão maléfico para você. Resolvi então me afastar. Errei mais uma vez. A escuridão se mostrou ainda mais assustadora. A atacava com garras invisíveis, porém, cortantes. A machucava e lhe fazia sangrar. Em pouco tempo, essa escuridão lhe venceria. A partir daí, procurei meios de espantar esse seu medo. Tentei de tudo e nada adiantara. Você ainda continuava triste e amedrontada. Foi quando percebi, algum tempo depois, de que realmente precisava. Com um impulso abracei você. A segurei firme. "Não se preocupe. Estou aqui."
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Vestígios Noturnos
A aula era de quimica. Enquanto o professor falava, eu pouco notava as anotações. Minha atenção era desviada para algo diferente. Um espaço paralelo totalmente desligado. Era nítida a total falta de interesse na aula. Meu olhar era fixo para a porta ligeiramente aberta. Me senti preso, acuado. Quis me libertar de algo que não me prendia. Lá fora o mundo me chamava com um sorriso aberto e sincero. Era tentador. O vento se combinava com a chuva fina criando um cenário do mais emocionate filme de romance. Os relâmpagos apareciam para iluminar o que a escuridão tentava, inutilmente, esconder.
Era inevitável. Minha mente não estava mais naquela sala de aula. Estava vagando pelo mundo à procura de algo que lhe fizesse bem e que lhe agradaria. Andava em círculos. Inúmeros e viciosos circulos. Viu almas alegres e sorridentes se comunicando com almas tristes e sozinhas, nenhuma delas a atendeu. Anos de procura e finalmente te achei. Como não me dei conta que esteve sempre aqui perto? Minh'alma, perdida e confusa, se encontrou em seu quarto. Vendo você dormindo, aproximou-se sorrateiramente apenas pra dizer ao pé do seu ouvido: "Estarei sempre contigo, aqui, do seu lado!"
Era inevitável. Minha mente não estava mais naquela sala de aula. Estava vagando pelo mundo à procura de algo que lhe fizesse bem e que lhe agradaria. Andava em círculos. Inúmeros e viciosos circulos. Viu almas alegres e sorridentes se comunicando com almas tristes e sozinhas, nenhuma delas a atendeu. Anos de procura e finalmente te achei. Como não me dei conta que esteve sempre aqui perto? Minh'alma, perdida e confusa, se encontrou em seu quarto. Vendo você dormindo, aproximou-se sorrateiramente apenas pra dizer ao pé do seu ouvido: "Estarei sempre contigo, aqui, do seu lado!"
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